sexta-feira, 14 de julho de 2017

Resenha baseada no livro A Mãe de Máximo Gorki, Editora Expressão Popular. Conforme orientações do prefaciador Frei Betto.

A barra pesou desta vez concluiu, melancolicamente, Maria uma quilombola acima de 50 anos, estatura mediana, sofre de escoliose e seus cabelos brancos fazem aparecer mais velha do que é. Cabisbaixa, seus olhos marejados estão fixos em seus dedos que seguram um velho rosário.

Aquela aflição parece não ter fim, Maria medita sobre aquele grande mal que estava rodando a sua vida há tempos. A demora aflige a cada segundo o seu coração materno. Um fio de esperança a amarrou naquele sofá e não a deixará ela não saber da verdade... com seus próprios olhos.

Escondida em algum ponto da sua alma, uma dor lancinante se lambuza com mais uma rodada de desgraça que aportou na vida de sua dona. Outra parte do inconsciente de Maria insiste em rememorar alguns acontecimentos. E nas passagens mais dura outra carga de lágrima é liberada. 
                                                                                                Maria sabe recorrer ao seu coração para obter a resposta. Mas primeira ela tenta pacificar a sua mente inquieta que que exige dela o próximo passo? Do outro lado o celular vibra com a chegada de mais uma mensagem de amigos querendo saber como tudo acabou.

Maria, seus filhos e seus familiares sempre viveram numa cidade do Interior Paulista. Desde criança ela ouve dizer que seus familiares paternos descendem de ex-escravos na região. Dessa forma, aquela terra onde ela vive tem sido passada de geração a geração da sua família.

Maria  e sua geração não recebeu a devida Educação que lhe permitisse compreender de forma mais ampla o seu papel como mulher, negra, afrocaipira, agricultora, cidadã, etc. Até que o destino decidiu que ela teria que fazer um intensivão disso sem comunicar-lhe.

O atual prefeito municipal se considera um homem prático, determinado e quer cumprir uma de suas promessas eleitoreiras: construir mais moradias populares. Diga-se de passagem, uma atitude altruísta tendo em vista o descaso histórico em relação à moradia no Brasil é crônico. 

Maria desconhecia o significado do termo divisão de classes. Ela, como a maioria dos brasileiros, entende que o voto como algo que se encerra no dia da eleição. Agora ela sabe que esse comportamento permitiu que aquela realidade fosse criada.

Em décadas pretéritas o governo local iniciou um processo de desapropriação de pequenas propriedades rurais para construir casas populares na periferia da cidade. Época em que a cidade aderiu à industrialização. Concomitantemente, a elite elabora o seu plano de segregação espacial.

E, como a demanda por moradia era aguda ninguém reclamou ou entendeu este movimento. Além do mais para o pobre o mais importante era conseguir a sua casinha para começar ou recomeçar a sua vida. Dessa foma, o projeto habitacional segregador avançou sem nenhuma resistência. 

Mas, o certo é que anos depois a estratégia habitacional provocou a desarticulação de parte da rede de produção de hortifrutigranjeiros da cidade. Consequentemente aumento o caro o custo de vida dos mais pobre. Tal atitude num País sério isso seria considerado um crime.

Só que a modernidade com seu um mantra entorpecedor: o consumo insustentável. Dessa forma, o cidadão ou consumidor não questiona a gama de impactos ambientais como: os lixões, os aterros controlados que também acirram a disputa pela terra.

Nessa situação seria esperado que a questão fundiária fosse questionada. Só que como já dissemos acima, a estrutura política brasileira protege os latifúndios. O que faz com que a sociedade apoie o frouxamento da legislação ambiental e questione os quilombos como o de Maria.

E havia um bom motivo para isso ter acontecido. O espertinho do prefeito local não quer saber de perder o seu Caixa 2 e outros benefícios que os "Grandes" sempre lhe ofereceu por manter a ordem social e territorial igual aos tempos de Abrantes.

Maria jamais poderia imaginar que um dia as áreas de proteção ambiental, de quilombos e de aldeias indígenas sofreriam um retrocesso político neste início do século 21. Estes extratos fundiários agora sofrem assédio intenso por pressão de cima para baixo.

Agora Maria compreende por qual razão o reconhecimento do seu quilombo empacou. A elite local não quer enterrar os planos de apropriação do seu pedaço. E para piorar este assunto é muito obscuro na nossa legislação. Qualquer iniciativa neste sentido pode ser algo hercúleo e angustiante.

Marino, seu filho mais velho e advogado havia se lançado nessa arena por ser um idealista. Ele foi um dos poucos do quilombo que avançou nos seus estudos. E num dia em que estava meditando uma voz incorpórea lhe avisou que a urbanização tomaria o seu amado lar.

A partir desse dia ele enfrentou tanto a resistência familiar quanto a social quando entrou no Largo do São Francisco. De onde voltou formado e finalmente fazer o trabalho que o Governo tem evitado há séculos. Para que nunca mais seus descendentes sejam maltratados por poderosos.

Infelizmente foi a dor que abriu os olhos dos parentes de Marino para o perigo. Antes, cheios de soberba sabotaram o trabalho de Marino. Sempre rebatiam a outra perspectiva com um frágil e velho mantra de que eles não seriam perturbados, pois pagavam os impostos. 

Para o advogado descendente de quilombola seria necessário ousar em termos espirituais. Falando mais claramente: rever uma característica indolente e danosa herdada: superar a incompetência familiar de gestão de bens. Já que aquela terra ainda era devoluta. 

Aceitar a saída do seu filho "rebelde" da barra da sua saia não foi fácil para esta senhora. Mas, o que pesou favoravelmente em apoiar esta questão foi um velho remorso. Mesmo sabendo que seria execrada pelos seus parentes, Maria decidiu que fosse feito a vontade de Deus.

O outro fato que deu respaldo para que Maria apoiasse o filho era algo íntimo. Quando jovem Maria ela havia se apaixonado por um palhaço de um circo que havia passado pela sua cidade. Mas, por não querer desagradar os familiares se resignou e não lutou pela sua felicidade. 

Maria não aceitou em carregar consigo também aquela dor. E mesmo a contragosto do marido alcoólatra e violento permitiu a saída do filho. Mas em seu íntimo Maria alimentava a esperança de que seu filho não se desse bem na “capitar” São Paulo.

Mas, Maria foi traída mais uma vez pelo destino e seu filho não só se formou como também o retorno de Marino conturbou o ambiente familiar. A impulsividade de Marino em atingir seus objetivos havia crescido com os estudos e acirrou ainda mais a inimizade de alguns familiares contrários.

Aliás, demorou para que Maria entendesse o que seria necessário para a terra era dela e seus parentes fosse realmente deles. E que para isso todos teriam que conversar com o Direito. Maria era ressabiada com a Justiça há tempo, pois esta havia retirado a terra de outros vizinhos. 

Maria lembra que a maioria dos desapropriados acordou assustada de manhãzinha com o ronco das máquinas de terraplanagem e trabalhadores da prefeitura refazendo o limite das propriedades para a construção de novos conjuntos habitacionais.

Até agora Maria não engoliu a justificativa de que Marino havia sido preso por desacato à autoridade. Não há quem lhe tire da cabeça que os "grandões" querem tirá-lo de circulação para impedir que seus atos pudessem impedir as ações arbitrárias da prefeitura em direção ao seu quilombo.

Após a malsucedida invasão do seu quilombo pelos agentes da prefeitura Maria e seus familiares ganharam notoriedade. Desde o momento que a sua história chegou ao Jornal Nacional ela não teve mais trégua. Afinal depois da Laja Jato esse foi a assunto mais perturbador que havia surgido.

Há meses que Maria deixou de lado a sua enxada como de costume para fazer vigília na frente da prefeitura para levantar um cartaz com a caligrafia de um dos seus netos clamando por justiça. Aos poucos sua atitude atraiu curiosos e fã tanto do Brasil quanto do Mundo.

Maria ficava impressionada com as aulas públicas que ela ouvia de doutores e líderes de causas sociais que se solidarizaram com a questão. Não havia um minuto em que ela era convocada por uma equipe de repórteres para que ela desse uma entrevista. 

De repente, ela sentiu que não fazia feio perante as câmeras, pois sempre havia prestado atenção na atitude calma e firme de Marino. Muitos dos apoiadores e Marino convenceram que algumas passeatas nas ruas principais da cidade ajudariam a causa.

A mãe de Marino ganhou destaque internacional e virou xodó da mídia por meio de longas reportagens no New York Times, na Paris Match, na BBC etc. Mais uma vez o mundo civilizado puxava a orelha do Brasil em relação ao seu descaso com os direitos sociais. 

No mundo virtual a coisa não foi diferente, várias moções eletrônicas circulavam exigindo justiça. Contudo, Marino teve o azar do caso ter caído nas mãos de um juiz que também era seu inimigo. E esta autoridade, insana demorava na análise dos pedidos de relaxamento da prisão.

Contudo, Maria não revelou para ninguém a dor que sentiu em seu coração quando viu aquele corpo estendido naquela gaveta do IML. Ela segurou a avalanche de dor que queria estourar dos pícaros da tristeza. O seu orgulho manteve seu semblante com a expressividade mais neutra possível. 

Em segredo Maria ouvia vozes incorpóreas que lhe diziam que ela mais do que nunca, deveria prosseguir no trabalho de reconhecimento da tua terra. para  que a morte de Marino não fosse algo em vão. O belo rosto do filho parecia lhe transmitir aquela notícia que ele não pode dar em vida.

Enquanto isso, um dos funcionários do IML lia no ecrã do telefone móvel a notícia de que um Ministro havia saído da cidade há instantes e que no roteiro original ele entregaria pessoalmente o documento que reconhece finalmente o quilombo do Cafundó. 

Mas, por algum motivo o roteiro havia sido mudado e que o prefeito havia recebido a demarcação do seu quilombo. Contudo, sem entrar em detalhes sobre a situação dos demais processos que, pelo jeito, continuarão sendo sufocados pelas vontades de políticos comprometidos com interesses escusos. 

domingo, 9 de julho de 2017

Sarau da Superação na Biblioteca Camila Cerqueira César dia 12/08/17

Olá, amigo(a)!


Estou bem, graças a Deus e felicíssimo por estar completando 05 anos de controle de um ex-tumor. Tanto que decidi praticar um pouco de gratidão oferecendo a você o Sarau da Superação.

Ele acontecerá no dia 12/08/17, das 13 h às 16 h. na Biblioteca Pública Municipal Camila Cerqueira César, localizada na rua Waldemar Sanches, 41 (Referências: Caixa D´água ou Parque da Sabesp no Jardim Bonfiglioli. Esta rua é curta e fica entre as ruas Ministro Adauto Cardoso e Coronel Ferreira Leal), São Paulo, SP.

Quero retribuir de forma poética a todos (as) que de alguma forma torceram e me apoiaram desde então. Vamos ter um momento para trabalhar poeticamente nossos desafios, medos, emoções de estarmos vivos.

Você pode começar superando a timidez e levar neste dia um poema de sua autoria, ou qualquer outra expressão artística e cultural, ou então, a sua simples presença como ouvinte.


Gratidão por espalhar este convite junto aos teus contatos e que continuemos com Deus.


Carlos

terça-feira, 20 de junho de 2017

Resenha do livro Mulher Moderna Tem Cúmplice de Claudia Canto

Olá, amigos e amigas internautas!

Demorei mais novamente apareço aqui para postar a minha resenha do livro da minha amiga, escritora, jornalista, atriz Cláudia Canto. No ano passado li o seu  livro Mulher Moderna Tem Cúmplice publicado pela Edicon. Boa leitura e sugiro que leiam o original também.



A autora narra esta história por meio de um alter ego, Ricardo um psicólogo renomado, um típico classe média alta, realizado profissionalmente, porém introspectivo e infeliz no amor. Ele se apaixonou perdidamente por Stela sua paciente que está a procura de respostas para a sua vida emocional atribulada. 

Por caprichos do imponderável, Ricardo sem saber atende em sua clínica o namorado de Estela, Gustavo. Desde o primeiro atendimento o terapeuta sabia que Estela era o grande amor de sua vida. Mas timidez e insegurança o impulsionam a manter a paixão em segredo e a adotar um comportamento voyeurista.

Stela foi presa nos calabouços de uma paixão vulcânica por Gustavo. Tanto lá quanto cá ela sofre calada e sem saber o por quais motivos ela não se liberta. Prazer e dor pairam nos horizontes cinzas desta jovem. O medo é o melhor amigo desta mulher que manda e desmanda em seus desejos.

A violência contra a mulher é mais comum do que pensa na realidade brasileira. Engana-se quem pensa que esta circunscrita apenas nas camadas baixas da sociedade. Os noticiários diariamente mostram casos e mais casos de violência contra a mulher perpetrados pelos seus parceiros independente do tamanho da conta bancária e dos iates.

Pode até parecer chavão o que vou dizer a seguir, porém está longe a superação desta violência. Às vezes por medo, dependência e vergonha as agressões sofridas são escondidas por anos a fio. Quando a situação se torna desgovernável é muito provável que ela leve até a morte da abusada.

Ao que tudo indica as últimas palavras desta obra, o futuro nos reservas muitas e muitas páginas de "Stelas" que são manchadas de sangue. A não ser que um dia finalmente paremos de enxergar a violência da mulher como algo banal. E que uma relação saudável é construída com muito amor e com respeito mutuo entre os parceiros.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Mais uma história caipira

Entrei naquele restaurante mineiro apenas com a intenção de almoçar. Mas saí de lá com a impressão de ter realmente entrado em um cinema. Nada foi premeditado por mais estranho que possa aparecer. Enquanto estive lá revi e participei da sequência de um episódio antigo da minha vida.

Depois cogitei que, no passado, eu não tenha lido a rubrica “continua” no rodapé no final da primeira parte. Se isto for verdade estou diante de um verdadeiro mistério. Afirmo isso, pois esses detalhes não me passavam despercebidos no final dos filmes ou desenhos animados. Ainda me lembro de como esse aviso me excitava.

Isso exigia de mim muita organização para assistir o final. Muitas vezes adiantei os meus compromissos. Outras tive que reagendá-los para outras datas. Ainda, costumava desenvolver roteiros imaginários. Neles eu projetava e especulava a minha continuidade para depois compará-la com o original.

Nesse clima de suspense meus heróis ganhavam armas, truques na mangas, criavam estratégias que derrotariam o vilão. Ou usavam da astúcia para sair daquela enrascada que eles se meteram. Tudo isso para poder comparar as minhas recriações e a orginal.

Vale destacar, que nem sempre esses caracteres costumam aparecer de forma explícita. Um exemplo é a famosa frase “Il' be back” do Exterminador do Futuro I? É, vejo que essas coisas marcaram a minha memória. Suspeito que alguém despistou esse meu lado estrategista por algum motivo que desconheço.

Tudo leva a crer que neste dia acompanhei mais uma parte do enredo de forma inesperada. Depois imaginei que o Destino pregou-me uma peça. Isso foi o que mais me espantou nesse evento. Após muita reflexão, decidi relatar como foi este episódio.

Aquele restaurante funcionava num sobrado antigo do centro de Jundiaí. Na entrada, havia uma placa com o cardápio escrito a mão com giz branco. A caligrafia era sofrível. O espaço interno era amplo e limpo. A sala do bufê não era a de um palácio.

Ao contrário, ela se parecia mais um retrato do microcosmo gastronômico da minha infância. O calor do fogão à lenha abraçava descaradamente as panelas de ferros e os refratários. O encardido da fumaça vivia em simbiose com o vermelhão pintado sobre o cimento.

Decidi pelo sistema sirva-se à vontade, mais barato. No meu primeiro prato só teve verduras. Notei que tudo estava muito bom. O tempero estava muito próximo ao da minha mãe. Logo o restaurante ficou cheio de clientes. 

Em uma mesa próxima sentou um grupo de rapazes bastante falador. Certamente, operários de alguma obra da circunvizinhança. A princípio, pensei que eles atrapalhariam o sossego do meu almoço. De repente, um dos rapazes perguntou para os seus colegas: “alguém de vocês já comeu frango atropelado?”

Imediatamente comecei a rir sozinho, pois reconheci algo familiar naquele questionamento alheio. Sem querer fiz uma viagem interna. Já na primeira enxurrada de imagens, percebi uma riqueza oculta da minha infância. Na hora, por puro preconceito quase ignorei aquela manifestação psíquica vinda daquele questionamento.

Mas algo me falou alto lá! Notei que aquilo há havia provocado em mim um inesperado prazer. Fiquei ainda mais motivado em fazer uma imersão espiritual ali mesmo enquanto comia. A partir desse momento, já nem prestava mais atenção na outra mesa.

Resgatei imagens antigas da casa onde cresci. Ela ficava em um sítio no Interior paulista, à beira de uma via de terra. A cidade era uma miragem distante.

Tanto a minha mãe quanto a minha tia criavam galinhas caipiras. As mais ariscas costumavam fugir para o matagal do outro lado da avenida. Todavia, ali circulavam carros. Para as aves fujonas, cerca era meramente um detalhe. A solução encontrada tanto pela minha mãe quanto pela minha tia foi a de cortar as asas delas com tesoura.

Vrupt! Vrupt! Esse era o sinal de que mais um frango ou mais uma galinha que se contorcia no meio na rua. Nessas ocasiões, tanto eu quanto algum dos meus irmãos íamos pegá-lo. Em geral, já encontrávamos o animal estava todo ensanguentado e com as tripas para fora.

Lembrei-me que foram poucos os motoristas que deram alguma satisfação para nós. Desconfio que muitos daqueles animais foram mortos mesmo por maldade do que por imprudência dos condutores.

Iria parar por aí, porém constatei que alguns leitões tiveram a mesma sina que as galinhas. Ao contrário destas, eles escavavam por túneis com seus focinhos por debaixo da cerca de madeira. Pareciam ser verdadeiros tatus.

Sempre que um fortíssimo soava em algum compasso dos grunhidos era sinal de que algum deles tivera êxito na empreitada. Só que de vez em quando acontecia de um o outro não atravessar ou retornar são e salvo para o chiqueiro.

Também aproveitávamos a carne do leitão. Só o descartávamos, completamente, caso ele tivesse totalmente esmagado. Em seguida, colocávamos água em panelas grandes no fogão na casa de quem tinha o fogo aceso para ferver.

Depois começava uma cirurgia delicada. O porco era colocado em um estrado de madeira feito pelo meu pai para essa finalidade. O couro dele recebia aos poucos um banho daquela água quente. O pelo era retirado rapidamente com uma faca afiada para a pele não encruar.

Mas nem tudo ficava perfeito. A carne mesmo depois de cozida ficava com um pouco do gosto do pneu ou da terra. Tais ingredientes extras davam um toque especial nesse prato. Ainda no restaurante, não tive dúvidas de que era isto que o rapaz iria enfatizar para os demais colegas na sua conversa.

Que bom que este gostinho ainda não saiu da minha mente. Suspeito que isto é um bom sinal. Se essas lembranças são manifestações da tal felicidade, não posso afirmar agora. Não ficarei nada surpreso se no futuro descobrir o significado deste fato em outro capítulo. 

terça-feira, 18 de abril de 2017

Resenha do Livro O Vento que arrasa da escritora argentina Selva Almada

Olá, amigo (a) internauta!

Abaixo segue um texto de minha autoria inspirado no livro Vento que arrasa da escritora argentina Selva Almada. Eu já havia lido na minha Jornada Literária Argentina em 2016. E coincidentemente esta foi a obra do mês de fevereiro de 2017 do grupo Tertuliadores. 

Este texto mescla ficção e realidade. Espero gostem deste "caldo". As fotos ilustrativas são minhas e fiz um mix de edições do evento narrado e de outros momentos que bati no sítio onde cresci. Boa leitura e fique à vontade para comentar.



O vento que (quase) arrasou uma festa junina.


O cenário é o velho quintal que por duas décadas corri protegido pelas sombras desta paineira centenária. Uma inquietude me acompanhou pela noite toda, pois não me desliguei de um único assunto: a festa junina no dia seguinte. 




Mas, antes de me empenhar tomarei uma boa xícara  de café preto. Daqui a pouco alguns velhos amigos aparecerão para dar aquela força. Esta festa tem permitido o exercício do velho costume caipira de apoiar o vizinho. 




A manhã, surge diante de mim um pouco fria, porém, intimamente, algo me diz que teremos uma noite agradável. Se bem que isso passa a ser relativo quando se está no interior de um país tropical como o nosso. Mas, seja o friozinho que chegasse seria recebido com quentão que minha mãe faz.



Até ontem eu era o jovem, mas a voz de um sobrinho me cumprimentando me avisa da mudança de status. Engraçado, o fato é que quando somos jovens não estava preocupado com essa mudança de estágio.



Sempre tive esta festa com uma oportunidade de ouro para haja a interação geracional. E também estou me reconectando com a terra e com os meus costumes. E eles seguem comigo apesar de toda modernidade.




A movimentação de entre e sai não para um minuto sequer. Em geral, minha mãe deixa a pessoa a vontade para fazer o que ele se prontificou a fazer sem dar opinião.



O almoço tem que ser rápido, as garfadas aconteceram, mas mastigar a comida... é outra história. É sempre assim, aparece alguém lamuriando que tem algo importante que ainda não foi feito. Ou que alguém disse que trará alguma coisa para contribuir para a festa.





No começo da noite o silêncio mascarava o estresse de cada um. Havia dado o início da fase em que um quer disputar com o outro a liderança de alguma coisa. Mas, sei que é por detrás disso está o cansaço, a ansiedade, a impotência sobre coisas que não controlamos.



Mas, houve uma vez que o imponderável se apresentou antes do início da festa. E esta foi uma das edições mais marcantes desta festa não só para mim mas também para os meus familiares e amigos que estavam aqui nos auxiliando.

De repente, aquele céu azul caipira foi enfeitado por escuras bandeirolas por São Pedro. Depois que o céu ficou decorado de nuvens escuras chegou o vento com a sua música para lá de animada levando pós, gravetos e outros materiais para formar a sua quadrilha.

Em questão de minutos aquela dupla meteorológica pôs abaixo a cobertura com lona plástico que nos exigiu horas de trabalho. Nesse momento você fica impotente, não como lutar contra aquele vento arrasador
.



Quando a fúria e a festa foram embora tanto eu quanto meus familiares ficamos boquiabertos com aquela atmosférica. Em segredo algo me dizia que aquilo tinha um toque espiritual. De repente, todo aquele clima festivo e ansiogênico havia ficado cinza. 



Confesso que pensei em "chutar o pau da barraca" literalmente, pois não demoraria para que os convidados começassem a chegar. Mas, senti uma reação vinda não sei da onde e ela me dizia que tínhamos que reagir. 

A começar pela reconstrução da cobertura de lona que havia desabado em tempo recorde. Quanto ao chão batido me lembrei de que por perto  havia uma serraria. Então, conversei com um dos meus irmãos para ele conseguiria lá pó de serra para espalhá-la no chão.

Enquanto eu e os demais ficamos se concentrados na reconstrução do rancho. O pó de serra se mostrou uma excelente tapete. Finda a reconstrução do abrigo anexo fiquei com a impressão que agora ele havia ficado ainda mais aconhegante do que o anterior.



A festa aconteceu como se nada de mais grave houvesse acontecido minutos antes. Suspeito de que aquilo acabou injetando um pouco de adrenalina naquela festa. E até agora é a edição mais marcante durante quase duas décadas.









quinta-feira, 2 de março de 2017

A Praça da Capela

A Praça da Capela


Faz algum tempo que flanar por aqui deixou de ser algo que faço por puro lazer e descontração. Este texto é um apanhado de uma arqueologia espiritual que fiz com o intuito de dissecar melhor esse fenômeno. 

De antemão, aviso que nas próximas linhas não descreverei a próxima maravilha do mundo. Tampouco anunciarei uma nova descoberta científica. Aliás, falar de praças nos dias de hoje pode suscitar polêmicas.

Considerando que seu porte é relativamente grande, cada usuário observa e apropria o que lhe convém. Quando menino, eu me entretinha em ler os nomes dos doadores grafados nos encostos dos seus bancos cinzentos.

Enquanto escrevo esse texto, concomitantemente, ressuscito o cheiro e o sabor das pipocas e piruás que comi após as missas. Inclusive os que foram consumidos juntamente com pedaços dos saquinhos.

Durante este processo literário também me surpreendi com a recordação de outro costume: o de caminhar por sobre as suas guias. Uma compulsão que, ao longo dos anos, foi o foco de inúmeros debates acalorados internos. 

Sem que eu entendesse o porquê, meu pensamento saltou para o velho leito da Mogiana nos fundos do sítio onde cresci. Pouco depois, eu me vi deslocar nos velhos trilhos. A minha postura era a de um equilibrista sobre a corda bamba. 

Aliás, notei duas características desse ato. A primeira, o de andar com os pés descalços para sentir a temperatura ambiente. A segunda, o de acariciar os meus pés nos trilhos finos. Talvez com o intuito de sentir o corte. 

Em seguida, me certifiquei se essa mania possuía nome e sobrenome. Então, dei uma googlada nas seguintes palavras: mania de andar sobre os trilhos de trem. Mas não encontrei referências sobre isso em algum portal. 

Enfim, o desafio traçado foi plenamente superado. E eu entendi que ao marchar tanto nesta praça quanto na via de tijolos amarelos ainda posso contar com a minha controvertida capacidade de sonhar e reinventar o meu destino.

Verão de 2013.

* Esta praça fica próxima ao centro da cidade Mogi Guaçu.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Um pouco da minha produção cordelística

Olá, internauta! Nesta postagem apresentarei outro projeto poético meu. Não foi por falta de orientação que demorei tanto para escrever cordéis, pois uma famosa cordelista há alguns anos atrás havia sugerido que escrevesse esta modalidade. Contudo, na época, não lhe dei ouvidos.

Felizmente, sou capaz de reconsiderar algumas decisões equivocadas. A minha produção atual está centrada no desenvolvimento de cordéis engajados na preservação ambiental.  E eles foram pensados como um ciclo relacionado aos recursos hídricos.

Mas, sou autodidata e sei que só com mais experiência e malevolência poética farei um excelente folheto. Tendo em vista que sou caipira e estou "arriscando" a vestir alguns temas com um formato da cultura nordestina. Mas, hoje postarei o primeiro trabalho de cordel.

O processo criativo dele foi controvertido, pois aconteceram várias travadas e retomadas. Guardei-o na gaveta por algum tempo depois retomei-o. De repente, sofri outro bloqueio criativo, pois não sabia para onde ir. Felizmente o imponderável age a favor da Arte para felicidade do Poeta.

Por fim, meu amigo ou amiga internauta fique à vontade para deixar um comentário se assim o desejar. Ou então, se preferir utilize o endereço eletrônico de contato.




O Angu do Diacho


O meu cordel fará tremer
Até quem é “cabra macho”.

De antemão vou lhe dizer:
- Verás um angu do diacho,
Tem gente grande envolvida,
Também é bom que se diga:
Agradará o populacho.

Um atleta de talento,
De uma equipe nacional,
Fez um torto lançamento,
Na sua vida pessoal,
Avançou a capacidade,
De driblar a tempestade,
Além do Bem e do Mal,

Seu passado foi sofrido,
Passou fome na favela,
Trajava calção puído,
Reinou num reino sem tela,
Era um mano inteligente,
Mas, não quis ser presidente,
E asfaltar a cidadela,

A tal jovem severina,
Também só digeriu o pão
De jiló sem margarina,
Sonhava ganhar o Mundão,
Ser uma celebridade,
Conquistar a majestade,
E comprar um belo carrão.

Em num futuro imperfeito,
A medalha de campeão,
Foi dormir dentro do peito,
Dos quatro cantos da prisão,
Não defenderá um golaço,
Nem será rei do cangaço,
Tampouco um hexacampeão,


Nessa história nada cheira
Bem, como diria um Holmes,
Não há sinal de caveira.
Nem de fios cuneiformes
Tudo feito com requinte
Dois mais zero não dá vinte,
Nada ficou nos conformes

Tem dedo de Agatha Christie,
Que não pára de questionar
Se não teve dinamite,
Aonde o corpo foi parar?
Talvez no rosto de um cordel?
Ou no recôndito céu?
Nem sombra ficou pra velar.

O cravo é muito queixudo,
Ainda esconde a verdade,
Se a rosa passou pro mundo,
Surdo da infelicidade
Sendo também condenada
A vagar na madrugada.
Sem foto na identidade.

Nós temos leis modernas,
Mas, o brasileiro empacou,
Na velha era das cavernas
Não vê que o bonde já passou.
Guiado pela forças do amor,
Mas, da China até Salvador,
Ser bestial é um show.